segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Vidas na calçada

Primavera e verão quase sem chuvas. Uma cidade calorenta.
Por horas as calçadas ficam salpicadas pelas crianças e suas famílias.
As crianças brincam com tudo que podem, bolas, cordas, bambolês, peteca, bonecas.
O movimento de carros é pouco. O asfalto das ruas é recente. Alguns motoristas ousam experimentá-lo rolando pneus, com patinetes ou carrinhos de rolimã que são empurrados com força e gosto, ladeira abaixo.
Todas as crianças se conhecem, parecem todos irmãos fazendo as mesmas brincadeiras com o mesmo jeito. Estão muito alegres, deixando o "tomar conta" para a atenção de dois senhores sentados na calçada, são o vizinho de cá e o vizinho de lá que entre atentos e despreocupados vigiam as crianças. Atrás deles as duas senhoras conversam. Estão na varanda da casa e que abre-se por um portão de ferro, só com grades. Conversavam muito, mas espertas não tiravam os olhos das crianças, desconfiadas com aquela atenção um pouco dispersa dos dois senhores.
Um deles está sentado em uma cadeira de ferro com o pé circular que sustenta braços também de ferro. Uma almofada de pano listrado torna-a mais confortável. O outro sempre traz o seu banquinho todo forrado com uma espuma bem grossa e pano florido.
É assim que em todas as tardes, depois que o sol some do horizonte os dois senhores se encontravam para colocarem os assuntos em dia ou "jogar conversa fora" na calçada.
Rodeados pelas crianças o vizinho de cá e o vizinho de lá continuaram se encontrando todos os dias. Todas as tardes. Até que no horizonte o sol se foi para um deles, o senhor de cá e fez-se o silêncio e o vazio na calçada.






Foto: Acervo Pessoal

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