Meu pai nasceu em Guatapará e com o irmão fundaram uma firma de consertos de geladeiras. Eles trouxeram o ramo da refrigeração comercial para esta cidade. Não deu certo porque o irmão, Mário, faleceu e o meu pai, Samuel - Nini -, passou a trabalhar sozinho com muita luta resistência e honestidade apesar de algumas pessoas tentarem maldosamente interromper o seu caminho.
Devagar, já aos 50 anos, ele recomeçou e fez fama. Viajava muito para as cidades vizinhas. Auto-didata, um dia foi levado para ensinar, pasmem, ensinar os engenheiros dos tratores Case enormes, como ele fazia para consertar o ar-condicionado dos mesmos porque ele conseguia. O agradecimento ficou só no papel, mas sua simplicidade e inteligência fizeram com que ele continuasse viajando, atendendo seus clientes e agora muito amigos. Ele era uma pessoa do bem, feliz e saudável. Em uma dessas viagens ele trouxe um filhote de pássaro preto (era permitido naquela época), bem pequenino. Esse pássaro pequenino era alimentado com ração umedecida em um palito e água.
O tempo passou e o pássaro cresceu, solto. Voava muito, dormia no lustre arredondado da cozinha, incrivelmente não fazia sujeiras. De manhã minha mãe, Genoveva (conhecida por todos como Dona Zica), levantava para fazer o café, o pássaro então, saia do lustre direto para o ombro dela, ela abria a janela e ele voava para o outro lado da casa em direção a janela do quarto onde meu pai dormia. Ele bicava a janela do quarto, meu pai ainda sonolento, abria a janela sem levantar e o pássaro preto voava para debaixo do cobertor. Logo ele saia de lá e ia voando para o poste em frente à nossa casa sobre o transformador e cantava muito e alto. Ninguém ensinou, parecia se comportar como um humano porque viva dando rasantes em um gatinho da vizinha só para brincar. Também na oficina, eles pediam: - Vá buscar um parafuso. Ele ia.
Outro fato foi comigo. Eu estava na varanda preparando aqueles espetinhos de salsicha, muçarela e azeitona que se servia muito nos aniversários. Eu ouvia música pelo rádio e preparava os aperitivos que estavam separados em pequenos pratos. Eis que ele veio e queria bicar qualquer deles. Eu espantei com a mãe dizendo não, mas ele veio várias vezes, se escondendo atrás do rádio e espiando como uma criança travessa. Ele pôs a carinha, ficou me olhando e eu deixei para ver. Ele pegou uma salsicha já picada com o bico e rápido, saiu voando, para escapar.
Ele era assim, alegre e feliz. Trouxe muita paz para todos nós. Evidentemente eu ainda eu solteira e ele continuava cantando muito. Algumas pessoas paravam para ouvi-lo cantar.
Mas um dia, ele parou. Bicou algum fio desencapado do transformador e caiu. Chorei muito. Muitas pessoas ainda perguntavam por ele, mas ele partiu, voou, voou ao encontro de Deus!
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