segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Pipas e bicicleta

Os amigos continuaram os mesmos. Aqueles da infância, amigos da mesma rua, do mesmo quarteirão. Eram muitos meninos de calças-curtas e idades que combinavam. O mais velho com 13 anos e o mais novo com 11 anos.
Os calças-curtas eram conhecidos no bairro. Viviam aprontando. Vidros quebrados foram muitos por causa das brincadeiras com bolas. Rolar pneu era a brincadeira preferida.
A rua, o lugar dos encontros marcados para depois da escola.
Os papagaios deram lugar às pipas que podiam ser soltas - empinadas - até o meio da rua. Enfeitadas com rabiolas caprichosamente recortadas e colocadas em forma de corrente ou repicada. A linha precisava ser forte e enrolada em carretel ou lata.
Dando linha eram empurradas pelo vento que subiam e enfeitavam o céu azul clarinho com suas cores e movimentos.
Havia uma disputa natural pela mais bonita, maior e outras artimanhas cujo objetivo era cortar a linha do outro. Nessa época com essa prática uma pipa sempre estava caindo. Era um gosto achar uma delas enroscada em qualquer lugar, telhado, portão ou quintal. Mas, as pipas foram desaparecendo dos céus, os calças-curtas estavam crescendo.
Uns fiapos de pêlo nas caras. Era hora de procurar um emprego.
No começo, iam à pé para o serviço que arrumavam, principalmente em escritórios ou com entrega de correspondências dos bancos.
A época exigia mais rapidez para o trabalho e o "tchan" dos meninos era ter uma bicicleta.
O pai do menino da travessa tinha uma Philips preta, pneus fininhos, mas não emprestava.
Ciumento que era, um dia, atento ao menino, o pai o chamou: - Coloca calça de homem e vem - disse-lhe entregando uma calça comprida.
E, ali mesmo, escondida no quintal, uma bicicleta Caloi.
-Agora vem comigo. Vou te mostrar o seu novo emprego!
O agora calça-comprida quase morreu de tanta felicidade.

Foto: Acervo Pessoal

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O menino da travessa

Uma rua, uma travessa.
Ali morava o menino. Tinha 11 anos e muitos sonhos. Pele morena, olhos castanhos escuros, cabelos ligeiramente encaracolados e compridos.
Depois da escola colocava o short feito de saco de açúcar tingido com anil. Aí podia brincar à vontade e fazer seus papagaios de papel de seda e varetas de bambu bem coloridos e muito bem feitos. A cola era feita de farinha de trigo que sua mãe preparava.
Com o tempo foi aperfeiçoando seu trabalho, com novos formatos e técnicas. Apareceu a cola de goma-arábica e o papel impermeável. Esse papel permitia que o papagaio ficasse na chuva.
Havia a disputa pelo melhor, o que aguentava mais tempo. Nela o menino viu uma oportunidade para tornar o seu sonho realidade: queria ir ao cinema e comprar bala Chita.
Todos os dias confeccionava os papagaios. Um de cada jeito, quadrado e charutinhos. O bambu era colhido no mato e pacientemente transformado em varetas. Eram recortados adequadamente sem rabiola.
Todos os sábados, daqueles anos 60, foram colocados sobre jornais no começo da travessa e no chão. Eles brilhavam entre duas bancas da feira, quase misturados aos legumes e sob o cheiro do pastel.
Esperançoso, o menino ali ficava com os papagaios à espera de um comprador. Outro menino aparecia, vindo da rua de trás. Descontente com a fama daquele, pisava com violência em todos os papagaios, procurando destruir o sonho.
Inconformado o menino de cabelos quase encaracolados pegava os pedaços do chão e voltava pela travessa até sua casa, para tentar reconstruir o seu sonho.
Afinal, amanhã seria outro dia.


Foto: Acervo Pessoal

O maior Papai Noel da minha vida e Lili do Rio Roncador

Imitando o desenho de sua mãe, ela fez o seu primeiro, com 8 anos, uma mulher ajoelhada nas areias de uma praia segurando um bola. Não parou mais. Era cheia de sonhos e fantasias.
Príncipes, princesas e até Papai Noel, e alguns bichinhos povoavam seus desenhos cheios de sonhos.
Aí, com 17 anos recebeu um desafio. Fazer um Papai Noel de gesso.
Ele precisava ser bem grande para ficar exposto na frente das Lojas Americanas, que contratou o desafio. 
Todas as tardes depois da escola, o Papai Noel foi sendo erguido, nos fundos da oficina de geladeiras. O servente da escola, o inesquecível Sr. Miguel, ajudava a mocinha a realizar este sonho. 
Feito com gesso, panos e arame ganhou volume e altura. No rosto expressivo, barba, bigode e cabelo brancos. Sobre a cabeça um gorro típico: tudo em gesso. Ali mesmo recebeu a pintura. Botas e cintos pretos. Roupa vermelha com detalhes em branco. Enorme! 
Ficou lindo e era impressionante na altura. Maior que a porta da oficina. Mesmo assim muito bem montado ele se mantinha firme, em pé, no chão.
Nem parecia que os dois fizeram aquela obra com as próprias mãos.
Chegou o dia da entrega. Surpresa! 
O Papai Noel era tão grande que não passava pela porta da oficina. Solução: Quebraram as pernas e colocaram aquele enorme Papai Noel, sentado.
Foi exposto na frente da loja. Era final de ano, vésperas de Natal, uma multidão na praça XV rodeava-o. 
A mocinha envergonhada não foi lá ver sua obra e de seu ajudante. 
O ganho foi pouco. O Sr. Miguel saiu da escola (não foi possível encontrá-lo mais), a única notícia era que havia ficado doente e não voltou mais para a escola.
A mocinha terminou seus estudos, mas a fantasia da existência do Papai Noel permaneceu e foi passada aos seus alunos em todo o final de ano. Os pequeninos realizavam trabalhos com símbolos do Natal e, acreditando ou não, ficavam muito felizes com essa fantasia. Ah, se fosse verdade...
Mais ou menos 10 anos depois, o segundo desafio.
Foi escolhida para ilustrar um livro.
Todos os desenhos foram feitos com lápis preto nº1 e sobre papel sulfite. A capa muito colorida era rica em detalhes. 
A autora, Lucília Junqueira de Almeida Prado, ganhou o prêmio Governador do Estado de São Paulo.
O livro, Lili do Rio Roncador, é a história de três pintainhas, Lalá, Lelé e Lili.
Eram novas, autora e ilustradora, a diferença de idade parecia muita. 
Hoje é pouca e talvez, como um dia lhe escrevi "Sempre haverá tempo para nos reencontrarmos"
Grupo Editorial Record

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Encontros Matinais


É manhã na cozinha, a porta está fechada e o vitrô da janela entreaberto.

Em busca de comida e água, passarinhos entram em minha casa.

Eles chegam, passam por debaixo da porta e pelas frestas da janela, ainda sem cortina, que tirei para lavar.

Voam muito e se perdem no corredor da casa. Quando encontram o caminho de volta, voam aos potes de água e ração que estão no chão da cozinha já um pouco velhos.

O dono dos potes, um cãozinho já de meia-idade chamado Bobby, que embora manso, ao perceber o alvoroço, corre para defender o que é seu. Instintivamente vira um caçador de pássaros, como foi em outros tempos.

Ligeiros e inteligentes, os pássaros rapidamente pegam o que querem e pelo mesmo lugar por onde entraram saem e voam livremente.

As visitas eram quase sempre matinais e alegravam meu dia.

Hoje, o Bobby não mais está entre nós.

E, os passarinhos deixaram de me visitar.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A árvore dos passarinhos

Lá pelo mês de setembro, a chuva cai no meu quintal.
Dentro de casa, ouço a voz da chuva, como ela cai e escorre pela janela, ainda de madeira, tipo veneziana, é mansa.
Sem trovões, mas forte. Demora para passar. 
Quando pára posso ir até o meu quintal. As folhas das árvores brilham muito, ainda com as gotas de chuva que ali estão e que pingam aos poucos pelos troncos das árvores ali existentes e para o chão de terra e de cimento. Cada pedaço exala um cheiro característico.
Tenho algumas flores nesse quintal, mas estão em vasos comprados no supermercado. Mesmo assim dão um colorido bem vivo no espaço tão verde.
Com a trégua da chuva posso sair de casa. Vou ao quintal. Passa do meio-dia, pego a velha cadeira, repintada várias vezes, por mim, porque é de ferro e a mesma que meu pai, o senhor de cá, usava para sentar-se na calçada. A almofada é outra. Sento-me no espaço cimentado ao redor da laranjeira.
A vida desperta na laranjeira e na jabuticabeira.
O silêncio é quebrado pelos tímidos gorjeios que vêm dos galhos, os mais altos.
São as ninhadas de passarinhos que pedem a comida trazida nos bicos. É um vai e vem de vôos, gorjeios e cantos. Parecem felizes, nem se preocupam com a minha presença.
Outros pássaros aparecem e cantam: sabiá, bem-te-vi e pica-pau.
Girando pelo quintal cuidadosamente algumas abelhas e borboletas aparece mas logo vão para longe, instintivamente.
Por algumas horas fico ali me deliciando com essa vida que a natureza pode nos oferecer.
Depois de muita festa, muita conversa, aos poucos esse alvoroço vai se ajeitando. É o final da tarde. Quase noite. É o crepúsculo e timidamente uma estrela aparece no céu, ainda com pouca luz e todos dormem.


Foto: Acervo Pessoal

O Silêncio e o Grito

No silêncio pode estar a incompetência, a vergonha, o medo de errar. No medo pode estar a incompetência, a iniciativa, a coragem de errar.
A inteligência, o amor e a educação não estão só na passividade do silêncio.
Um ser silencioso, quando não em meditação, sente-se impoluto.
É fácil não errar no silêncio e no isolamento.
O ser não ouve, não vê, não sente. Ele com ele mesmo e tenho dito!
Assim, tanto o grito como o silêncio, pode ser uma forma condenável de conduta, de se sentir inferior ou superior a outras pessoas ou acontecimentos.
O silêncio pode ser o grito de um medo. E o medo o silêncio de um grito.

Vidas na calçada

Primavera e verão quase sem chuvas. Uma cidade calorenta.
Por horas as calçadas ficam salpicadas pelas crianças e suas famílias.
As crianças brincam com tudo que podem, bolas, cordas, bambolês, peteca, bonecas.
O movimento de carros é pouco. O asfalto das ruas é recente. Alguns motoristas ousam experimentá-lo rolando pneus, com patinetes ou carrinhos de rolimã que são empurrados com força e gosto, ladeira abaixo.
Todas as crianças se conhecem, parecem todos irmãos fazendo as mesmas brincadeiras com o mesmo jeito. Estão muito alegres, deixando o "tomar conta" para a atenção de dois senhores sentados na calçada, são o vizinho de cá e o vizinho de lá que entre atentos e despreocupados vigiam as crianças. Atrás deles as duas senhoras conversam. Estão na varanda da casa e que abre-se por um portão de ferro, só com grades. Conversavam muito, mas espertas não tiravam os olhos das crianças, desconfiadas com aquela atenção um pouco dispersa dos dois senhores.
Um deles está sentado em uma cadeira de ferro com o pé circular que sustenta braços também de ferro. Uma almofada de pano listrado torna-a mais confortável. O outro sempre traz o seu banquinho todo forrado com uma espuma bem grossa e pano florido.
É assim que em todas as tardes, depois que o sol some do horizonte os dois senhores se encontravam para colocarem os assuntos em dia ou "jogar conversa fora" na calçada.
Rodeados pelas crianças o vizinho de cá e o vizinho de lá continuaram se encontrando todos os dias. Todas as tardes. Até que no horizonte o sol se foi para um deles, o senhor de cá e fez-se o silêncio e o vazio na calçada.






Foto: Acervo Pessoal

Sobre a Paz


Estou buscando a paz,
Nos caminhos, nas ruas das cidades,
Nos olhos e nas bocas das pessoas
Que passam por aqui.
Estou buscando a paz,
Nos cantos dos pássaros
Que com seus vôos velozes
Nos conduzem à liberdade.
Liberdade de alma, de corpos,
De Sonhos.
Estou buscando a paz,
Na natureza,
Na profundidade de seus verdes,
Nos coloridos de suas flores.
Estou buscando a paz,
Nas estrelas, nos astros, no universo.
Estou buscando a paz,
Dentro de mim!


(Texto de 1999)

Ave-Maria

Ave-Maria,
Cheia de luz e de graça
Bendita sois vós dentre todas as mulheres
Bendito é aquele que carregastes no ventre
Santa Maria que a todos escuta e tudo vê
Que atende nossos pedidos
Orai por nós
E protegei todas as nossas ações e pensamentos
Mãe Piedosa recorremos a vós agora e em todos os dias de nossa vida
Amém

Desabafos

Apesar do calor, hoje domingo, dormi à tarde, ventilador e ar-condicionado ligados no máximo. Vou dormir sempre de madrugada depois das 3:00hs. Até faço café depois das 4:00hs, assim não acordo cedo, acho que vou mais é dormir cedo.
As horas passam e eu na TV, desenhando, pintando, ou até rezando o terço. Gosto disso, mesmo porque vivi grudada no relógio, nas horas e despertador, à merce dos horários de entrada nas escolas, nos 50 minutos de cada aula, muitas vezes cansada e morrendo de sono.
Depois que me formei em 1953, fiquei 5 anos com aulas na Escola de Artes Plásticas no curso infantil de Arte.
De 1969 a 1995 fiquei com aulas em escolas estaduais do Estado de São Paulo. Nesse período me efetivei e aposentei, com aulas de 5ª a 8ª séries e os 3 colegiais. Depois em um período fiquei em escolas particulares e prefeitura de Ribeirão Preto.Dei aulas no curso normal.
Com 50 anos fui gradativamente ficando deficiente visual. Mesmo assim estudei com lupas e resumos com a caneta tipo Pilot, assim consegui me efetivar novamente. Assumi em Ribeirão Preto.
Com o tempo fui escolhendo apenas aulas de Arte no pirmário-ensino fundamental de 1ª a 4ª séries. Foi um período difícil. Minhas filhas sempre me assessorando, até as crianças me ajudavam na locomoção. Com escolas sem acesso necessário para um deficiente visual.
As cadernetas foram criadas por mim com esta mesma caneta Pilot.
Mesmo com toda a dificuldade ouvi "gente grande" falar: - Ela enxerga só o que quer... Essa velha! Porque eu já tinha 58 anos.
Apesar das escadarias, a falta de banheiro nas salas superiores me aposentei proporcionalmente, com o tempo necessário, paguei todas as minhas licenças, lecionando, juntando o tempo de particular com este proporcional. Bem que deu uns 15 anos e imitando o Chico Anysio com um sálario Ó ... R$ 694,00.
E olhem que, em todos esse anos, no mínimo 45, fiz cursos de Licenciatura em Desenho e Plástica - Educação Artística, Desenhos Industriais, Curso Normal, Pedagogia e outros de Extensão Universitária.
Senti sempre o Ensino como uma missão, mas acho mesmo que fui esquecida nessa Missão.
É... "Esqueceram de Mim"!

Separações

Algumas circunstâncias na vida nos obrigam às separações.
Marido e mulher, pais e filhos, avós e netos.
Tem gente que sofre até porque se separa de um objeto qualquer.
Algumas separações envolvem animais de estimação, se pudesse, ficariam assim: metade para cada um.
É a perda de si mesmo. Ficam alienados pelo desejo de posse e de vingança.
Você pode aceitar a separação e se conformar. Pode mudar de casa ou ficar nela e sentir saudade.
Assim é. 
A sua casa está de férias.

O pássaro preto

Meu pai nasceu em Guatapará e com o irmão fundaram uma firma de consertos de geladeiras. Eles trouxeram o ramo da refrigeração comercial para esta cidade. Não deu certo porque o irmão, Mário, faleceu e o meu pai, Samuel - Nini -, passou a trabalhar sozinho com muita luta resistência e honestidade apesar de algumas pessoas tentarem maldosamente interromper o seu caminho. 
Devagar, já aos 50 anos, ele recomeçou e fez fama. Viajava muito para as cidades vizinhas. Auto-didata, um dia foi levado para ensinar, pasmem, ensinar os engenheiros dos tratores Case enormes, como ele fazia para consertar o ar-condicionado dos mesmos porque ele conseguia. O agradecimento ficou só no papel, mas sua simplicidade e inteligência fizeram com que ele continuasse viajando, atendendo seus clientes e agora muito amigos. Ele era uma pessoa do bem, feliz e saudável. Em uma dessas viagens ele trouxe um filhote de pássaro preto (era permitido naquela época), bem pequenino. Esse pássaro pequenino era alimentado com ração umedecida em um palito e água.
O tempo passou e o pássaro cresceu, solto. Voava muito, dormia no lustre arredondado da cozinha, incrivelmente não fazia sujeiras. De manhã minha mãe, Genoveva (conhecida por todos como Dona Zica), levantava para fazer o café, o pássaro então, saia do lustre direto para o ombro dela, ela abria a janela e ele voava para o outro lado da casa em direção a janela do quarto onde meu pai dormia. Ele bicava a janela do quarto, meu pai ainda sonolento, abria a janela sem levantar e o pássaro preto voava para debaixo do cobertor. Logo ele saia de lá e ia voando para o poste em frente à nossa casa sobre o transformador e cantava muito e alto. Ninguém ensinou, parecia se comportar como um humano porque viva dando rasantes em um gatinho da vizinha só para brincar. Também na oficina, eles pediam: - Vá buscar um parafuso. Ele ia.
Outro fato foi comigo. Eu estava na varanda preparando aqueles espetinhos de salsicha, muçarela e azeitona que se servia muito nos aniversários. Eu ouvia música pelo rádio e preparava os aperitivos que estavam separados em pequenos pratos. Eis que ele veio e queria bicar qualquer deles. Eu espantei com a mãe dizendo não, mas ele veio várias vezes, se escondendo atrás do rádio e espiando como uma criança travessa. Ele pôs a carinha, ficou me olhando e eu deixei para ver. Ele pegou uma salsicha já picada com o bico e rápido, saiu voando, para escapar.
Ele era assim, alegre e feliz. Trouxe muita paz para todos nós. Evidentemente eu ainda eu solteira e ele continuava cantando muito. Algumas pessoas paravam para ouvi-lo cantar.
Mas um dia, ele parou. Bicou algum fio desencapado do transformador e caiu. Chorei muito. Muitas pessoas ainda perguntavam por ele, mas ele partiu, voou, voou ao encontro de Deus!

O pé de caqui

Eu sempre amei esta casa justamente pelas árvores frutíferas que ficam no quintal com terra. Este foi o gosto do meu pai. Ali até horta ele cultivou e criou galinhas. As que ele pacientemente ajudou a nascerem. 
Mecânico, dos melhores, construiu uma chocadeira e dali surgiram muitos pintainhos, todos amarelinhos. Um dia vi-me rodeada por todos eles sentada no chão. Seu gosto pela terra fez com que plantasse naquele quintal vários pés de frutas.
Passados alguns anos, ele plantou um pé de caqui. Ele cresceu devagarinho e por mais ou menos 5 anos ficou ali quase solitário.
Case-me, tive duas filhas, a Gio e a Tati, e o caqui ali ainda solitário, mas regado sempre pelo meu pai.
Em um dia qualquer uma ideia de avô surgiu. Em um dos galhos ele pendurou uma corda e embaixo uma pequena tábua e já estava pronto o balanço. Ele foi a alegria verdadeira das minhas filhas e de todos os netos que às vezes vinham ao quintal de terra.
Mas, como tudo passa, meu pai veio a falecer e elas já com 9 e 7 anos, em idade escolar, foram esquecendo do velho balanço. Um dia, eu indo àquele quintal me deparei com a cordinha do balanço já pequena e apodrecida pendurada solitária, no mesmo galho, um pouquinho mais alto.
E o caqui cresceu, solitário, mas vivendo!

Recordações

17/01/2015

Relendo o texto anterior hoje, eu me lembrei de um dia parecido com esse, no meu passado. Tive uma amida muito querida, estudávamos no curso primário, no chamado grupo escolar.
Sempre que eu podia ia à sua casa. Seus pais tinham uma lavanderia era tudo muito simples e muito limpo. Subindo uma escada de madeira construída artesanalmente ficava a cozinha. Passando por ela, um costume da casa, os copos de vidro eram colocados sobre um pano de pratos, muito alvejado, para secarem. Aquele instante que você para de fazer o que está fazendo aconteceu. Eu tinha meus 9 anos, mas vi. O sol passando por um telha transparente jogava seus raios sobre os copos ali colocados para secarem, mais de 10, virados para baixo sobre o pano reluzente e aquele feixe de luz foi um momento poético na minha vida que jamais esqueci. Querida amiga, acho que você nem sabe disso.
Passaram-se 60 anos!

Experimente!

Hoje, 15/12/2014, 9h30min, estou na cozinha sentada vendo TV, aí consigo de repente desviar o olhar e observar o sol entrado pela porta de vidro e pela janela através da cortina. O sol está muito forte e limpo. Seus raios filtrados pelo vidro batem na ponta da mesa, onde estão as panelas e os copos de vidro. Estes objetos ali inertes criam vida, a vida da luz e refletem um brilho tão intenso, tão puro como o cristal ou um diamante. E porque alguns ainda estão molhados posso ver pequenos lampejos de um arco-íris. Tudo muito lindo! Devagarinho o sol vai mudando a sua posição no universo, e eu fico ainda ali, só observando. Afinal, nada tenho para fazer e posso me dar o gosto de ver este espetáculo da natureza. Você já parou o que estava fazendo ou fazendo nada para observar tudo isso? Experimente!