quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Passeio

De repente, a avenida principal daquela cidade bucólica é uma estrada, sem acostamento. 
Nos dois lados da pista estão as casas. Pode-se contá-las. Construções pequenas, umas são de alvenaria, outras de madeira, invariavelmente, pintadas com as cores azul ou ocre quase amarelo. 
Acompanhando o desnível do terreno, com altos e baixos, passam mais duas ruas. Elas cortam a avenida principal. Poucas casas estão ali, todas são ladeadas por árvores, sibipirunas ou ipês, no chão as hortênsias ainda levemente floridas. 
Espalhados pela região, os pinheiros, as araucárias e os eucaliptos, plantados ali aleatoriamente. São de um verde vibrante, dos galhos ainda escorre a água da última chuva, suas folhas brilham com o sol chegando tímido. Chove muito na região. O vapor que fica, forma uma neblina de calor e umidade e por uns momentos as casas desaparecem. O aroma dos eucaliptos e pinheiros torna-se mais intenso. 
Observo com satisfação essa paisagem. Não estou sozinha.
Essa rua tem um contorno, muda de direção e com um profundo declive. Parece até que precisa de um corrimão. Eu, minhas filhas e meu neto caminhamos de mãos dadas por dois quarteirões. São menores que os que estamos acostumados a ver. As ruas que correm esses trechos são ainda de terra batida. Estão úmidos e nossos pés grudam um pouco nessa terra amassada. Conversamos muito. E surpresa! Encravada no final dessa rua, bem no fundo de uma elevação aparece uma casa toda colorida, perfeita, como uma casinha para bonecas. É pintada com tinta rosa. Os tijolos estão aparentes e contornados com branco. As janelas e a porta de madeira, azuis como o céu e o telhado vermelho. Na frente uma cerca de madeira na cor laranja. Uns pés de maracujás estão enroscados nela, flores roxas, brancas e vermelhas salpicam a folhagem bem verde. Pequeninos frutos e muito poucos estão ali pendurados, são amarelos. Um cartaz está ali à frente: Aluga-se para temporadas. Feito de papelão está quase desmanchado pelas águas das chuvas. 
Contornando esse cenário, pinheiros. Ainda pequenos, eu diria um pouco maiores que o meu neto. Perceptivo e observador ele fala: - Gosto do verde das árvores! - com seu linguajar ainda imaturo, tem apenas 3 anos.
- Eu também gosto - diz a mãe. 
- Por que você gosta? - interpela a tia.
Ele responde: - A MINHA CABEÇA GOSTA.
E, fico ali, calada, me deliciando com toda essa magia!

 Foto: Tati Felippotti 

sábado, 7 de novembro de 2015

As alegrias da casa azul


 Numa rua muito movimentada existia uma casa com muros azuis. Nesta casa morava a avó, sua filha e duas netas. Todos que passavam pela rua, podiam visualizar um corredor onde desembocavam duas portas provenientes da sala de estar que sempre estavam abertas. Por elas era possível ver como as pessoas que ali residiam eram felizes. Muitos se perguntavam o que deixavam elas tão felizes e descobriram que a felicidade eram os cachorros que por ali passaram.
Foram três cachorrinhos: o Pitty, o Bobby e o Pingo, cada um a seu tempo e com sua própria história, fizeram a alegria da casa azul.
Pitty, um vira-lata branco com manchas pretas muito bem dispostas, era um cachorro muito sábio, olhava e parecia entender tudo o que seus donos falavam. Chegou muito pequeno e sua infância marcou a infância das crianças que com ele conviveram.
Muito esperto, aprendia tudo que era ensinado em muito pouco tempo. Aprendeu a latir quando falavam a palavra "parla". Em uma de suas aventuras, que foram muitas, um vizinho da outra rua veio até o portão reclamando que um cachorro estava no seu telhado e latindo muito.... era o Pitty. Com sua esperteza percebeu que ao subir por uma "rampa" (porta de geladeira) que estava apoiada ao pé de goiabeira, conseguiria ir até o telhado e de lá foi até o telhado do vizinho.
Depois de 5 anos, Bobby, um poodle cor champanhe, muito peludo e magrinho, chegou como presente de Natal. Aos poucos conquistou a amizade do Pitty com muitas lambidas em suas orelhas. Está amizade foi especial, um não se desgrudava do outro. Infelizmente essa amizade foi interrompida pela morte de Pitty. Bobby então se sentiu sozinho, ficando muito abatido e com depressão. Mas Bobby não ficou sozinho por muito tempo.
Em um belo dia de sol, apareceu no portão da casa azul, um cachorrinho também da raça poodle, que latia insistentemente. Com dó do pobre cachorrinho, a família da casa azul o adotou. Muitos nomes foram ditos na tentativa de descobrir o verdadeiro nome. Então, finalmente foi dito Pingo e ele aceitou no mesmo instante.
Os dias foram passando, Bobby e Pingo tinham uma amizade de amor e ciúmes. Brigavam bastante, mas eram felizes na presença um do outro. Um dia, inesperadamente, Pingo saiu correndo rapidamente pelo portão entreaberto, ganhando a rua e infelizmente o céu.
Bobby então viveu por muitos outros anos e com muito amor e sendo agora a alegria dos adolescentes da casa.
Ter animais de estimação é a maior alegria, o maior presente que alguém pode experimentar.
Sempre alegres te recebem, sem cobrar nada em trocar. 
Amor = Amor
Felicidade = Felicidade
Amor + Felicidade = Paz


Foto: Acervo Pessoal

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Pipas e bicicleta

Os amigos continuaram os mesmos. Aqueles da infância, amigos da mesma rua, do mesmo quarteirão. Eram muitos meninos de calças-curtas e idades que combinavam. O mais velho com 13 anos e o mais novo com 11 anos.
Os calças-curtas eram conhecidos no bairro. Viviam aprontando. Vidros quebrados foram muitos por causa das brincadeiras com bolas. Rolar pneu era a brincadeira preferida.
A rua, o lugar dos encontros marcados para depois da escola.
Os papagaios deram lugar às pipas que podiam ser soltas - empinadas - até o meio da rua. Enfeitadas com rabiolas caprichosamente recortadas e colocadas em forma de corrente ou repicada. A linha precisava ser forte e enrolada em carretel ou lata.
Dando linha eram empurradas pelo vento que subiam e enfeitavam o céu azul clarinho com suas cores e movimentos.
Havia uma disputa natural pela mais bonita, maior e outras artimanhas cujo objetivo era cortar a linha do outro. Nessa época com essa prática uma pipa sempre estava caindo. Era um gosto achar uma delas enroscada em qualquer lugar, telhado, portão ou quintal. Mas, as pipas foram desaparecendo dos céus, os calças-curtas estavam crescendo.
Uns fiapos de pêlo nas caras. Era hora de procurar um emprego.
No começo, iam à pé para o serviço que arrumavam, principalmente em escritórios ou com entrega de correspondências dos bancos.
A época exigia mais rapidez para o trabalho e o "tchan" dos meninos era ter uma bicicleta.
O pai do menino da travessa tinha uma Philips preta, pneus fininhos, mas não emprestava.
Ciumento que era, um dia, atento ao menino, o pai o chamou: - Coloca calça de homem e vem - disse-lhe entregando uma calça comprida.
E, ali mesmo, escondida no quintal, uma bicicleta Caloi.
-Agora vem comigo. Vou te mostrar o seu novo emprego!
O agora calça-comprida quase morreu de tanta felicidade.

Foto: Acervo Pessoal

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O menino da travessa

Uma rua, uma travessa.
Ali morava o menino. Tinha 11 anos e muitos sonhos. Pele morena, olhos castanhos escuros, cabelos ligeiramente encaracolados e compridos.
Depois da escola colocava o short feito de saco de açúcar tingido com anil. Aí podia brincar à vontade e fazer seus papagaios de papel de seda e varetas de bambu bem coloridos e muito bem feitos. A cola era feita de farinha de trigo que sua mãe preparava.
Com o tempo foi aperfeiçoando seu trabalho, com novos formatos e técnicas. Apareceu a cola de goma-arábica e o papel impermeável. Esse papel permitia que o papagaio ficasse na chuva.
Havia a disputa pelo melhor, o que aguentava mais tempo. Nela o menino viu uma oportunidade para tornar o seu sonho realidade: queria ir ao cinema e comprar bala Chita.
Todos os dias confeccionava os papagaios. Um de cada jeito, quadrado e charutinhos. O bambu era colhido no mato e pacientemente transformado em varetas. Eram recortados adequadamente sem rabiola.
Todos os sábados, daqueles anos 60, foram colocados sobre jornais no começo da travessa e no chão. Eles brilhavam entre duas bancas da feira, quase misturados aos legumes e sob o cheiro do pastel.
Esperançoso, o menino ali ficava com os papagaios à espera de um comprador. Outro menino aparecia, vindo da rua de trás. Descontente com a fama daquele, pisava com violência em todos os papagaios, procurando destruir o sonho.
Inconformado o menino de cabelos quase encaracolados pegava os pedaços do chão e voltava pela travessa até sua casa, para tentar reconstruir o seu sonho.
Afinal, amanhã seria outro dia.


Foto: Acervo Pessoal

O maior Papai Noel da minha vida e Lili do Rio Roncador

Imitando o desenho de sua mãe, ela fez o seu primeiro, com 8 anos, uma mulher ajoelhada nas areias de uma praia segurando um bola. Não parou mais. Era cheia de sonhos e fantasias.
Príncipes, princesas e até Papai Noel, e alguns bichinhos povoavam seus desenhos cheios de sonhos.
Aí, com 17 anos recebeu um desafio. Fazer um Papai Noel de gesso.
Ele precisava ser bem grande para ficar exposto na frente das Lojas Americanas, que contratou o desafio. 
Todas as tardes depois da escola, o Papai Noel foi sendo erguido, nos fundos da oficina de geladeiras. O servente da escola, o inesquecível Sr. Miguel, ajudava a mocinha a realizar este sonho. 
Feito com gesso, panos e arame ganhou volume e altura. No rosto expressivo, barba, bigode e cabelo brancos. Sobre a cabeça um gorro típico: tudo em gesso. Ali mesmo recebeu a pintura. Botas e cintos pretos. Roupa vermelha com detalhes em branco. Enorme! 
Ficou lindo e era impressionante na altura. Maior que a porta da oficina. Mesmo assim muito bem montado ele se mantinha firme, em pé, no chão.
Nem parecia que os dois fizeram aquela obra com as próprias mãos.
Chegou o dia da entrega. Surpresa! 
O Papai Noel era tão grande que não passava pela porta da oficina. Solução: Quebraram as pernas e colocaram aquele enorme Papai Noel, sentado.
Foi exposto na frente da loja. Era final de ano, vésperas de Natal, uma multidão na praça XV rodeava-o. 
A mocinha envergonhada não foi lá ver sua obra e de seu ajudante. 
O ganho foi pouco. O Sr. Miguel saiu da escola (não foi possível encontrá-lo mais), a única notícia era que havia ficado doente e não voltou mais para a escola.
A mocinha terminou seus estudos, mas a fantasia da existência do Papai Noel permaneceu e foi passada aos seus alunos em todo o final de ano. Os pequeninos realizavam trabalhos com símbolos do Natal e, acreditando ou não, ficavam muito felizes com essa fantasia. Ah, se fosse verdade...
Mais ou menos 10 anos depois, o segundo desafio.
Foi escolhida para ilustrar um livro.
Todos os desenhos foram feitos com lápis preto nº1 e sobre papel sulfite. A capa muito colorida era rica em detalhes. 
A autora, Lucília Junqueira de Almeida Prado, ganhou o prêmio Governador do Estado de São Paulo.
O livro, Lili do Rio Roncador, é a história de três pintainhas, Lalá, Lelé e Lili.
Eram novas, autora e ilustradora, a diferença de idade parecia muita. 
Hoje é pouca e talvez, como um dia lhe escrevi "Sempre haverá tempo para nos reencontrarmos"
Grupo Editorial Record

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Encontros Matinais


É manhã na cozinha, a porta está fechada e o vitrô da janela entreaberto.

Em busca de comida e água, passarinhos entram em minha casa.

Eles chegam, passam por debaixo da porta e pelas frestas da janela, ainda sem cortina, que tirei para lavar.

Voam muito e se perdem no corredor da casa. Quando encontram o caminho de volta, voam aos potes de água e ração que estão no chão da cozinha já um pouco velhos.

O dono dos potes, um cãozinho já de meia-idade chamado Bobby, que embora manso, ao perceber o alvoroço, corre para defender o que é seu. Instintivamente vira um caçador de pássaros, como foi em outros tempos.

Ligeiros e inteligentes, os pássaros rapidamente pegam o que querem e pelo mesmo lugar por onde entraram saem e voam livremente.

As visitas eram quase sempre matinais e alegravam meu dia.

Hoje, o Bobby não mais está entre nós.

E, os passarinhos deixaram de me visitar.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A árvore dos passarinhos

Lá pelo mês de setembro, a chuva cai no meu quintal.
Dentro de casa, ouço a voz da chuva, como ela cai e escorre pela janela, ainda de madeira, tipo veneziana, é mansa.
Sem trovões, mas forte. Demora para passar. 
Quando pára posso ir até o meu quintal. As folhas das árvores brilham muito, ainda com as gotas de chuva que ali estão e que pingam aos poucos pelos troncos das árvores ali existentes e para o chão de terra e de cimento. Cada pedaço exala um cheiro característico.
Tenho algumas flores nesse quintal, mas estão em vasos comprados no supermercado. Mesmo assim dão um colorido bem vivo no espaço tão verde.
Com a trégua da chuva posso sair de casa. Vou ao quintal. Passa do meio-dia, pego a velha cadeira, repintada várias vezes, por mim, porque é de ferro e a mesma que meu pai, o senhor de cá, usava para sentar-se na calçada. A almofada é outra. Sento-me no espaço cimentado ao redor da laranjeira.
A vida desperta na laranjeira e na jabuticabeira.
O silêncio é quebrado pelos tímidos gorjeios que vêm dos galhos, os mais altos.
São as ninhadas de passarinhos que pedem a comida trazida nos bicos. É um vai e vem de vôos, gorjeios e cantos. Parecem felizes, nem se preocupam com a minha presença.
Outros pássaros aparecem e cantam: sabiá, bem-te-vi e pica-pau.
Girando pelo quintal cuidadosamente algumas abelhas e borboletas aparece mas logo vão para longe, instintivamente.
Por algumas horas fico ali me deliciando com essa vida que a natureza pode nos oferecer.
Depois de muita festa, muita conversa, aos poucos esse alvoroço vai se ajeitando. É o final da tarde. Quase noite. É o crepúsculo e timidamente uma estrela aparece no céu, ainda com pouca luz e todos dormem.


Foto: Acervo Pessoal