Ali morava o menino. Tinha 11 anos e muitos sonhos. Pele morena, olhos castanhos escuros, cabelos ligeiramente encaracolados e compridos.
Depois da escola colocava o short feito de saco de açúcar tingido com anil. Aí podia brincar à vontade e fazer seus papagaios de papel de seda e varetas de bambu bem coloridos e muito bem feitos. A cola era feita de farinha de trigo que sua mãe preparava.
Com o tempo foi aperfeiçoando seu trabalho, com novos formatos e técnicas. Apareceu a cola de goma-arábica e o papel impermeável. Esse papel permitia que o papagaio ficasse na chuva.
Havia a disputa pelo melhor, o que aguentava mais tempo. Nela o menino viu uma oportunidade para tornar o seu sonho realidade: queria ir ao cinema e comprar bala Chita.Todos os dias confeccionava os papagaios. Um de cada jeito, quadrado e charutinhos. O bambu era colhido no mato e pacientemente transformado em varetas. Eram recortados adequadamente sem rabiola.
Todos os sábados, daqueles anos 60, foram colocados sobre jornais no começo da travessa e no chão. Eles brilhavam entre duas bancas da feira, quase misturados aos legumes e sob o cheiro do pastel.
Esperançoso, o menino ali ficava com os papagaios à espera de um comprador. Outro menino aparecia, vindo da rua de trás. Descontente com a fama daquele, pisava com violência em todos os papagaios, procurando destruir o sonho.
Inconformado o menino de cabelos quase encaracolados pegava os pedaços do chão e voltava pela travessa até sua casa, para tentar reconstruir o seu sonho.
Afinal, amanhã seria outro dia.
Foto: Acervo Pessoal
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